O frio de Curitiba tem um jeito muito específico de abraçar a gente. Não é aquele frio cortante que isola; é um convite ao recolhimento, ao vinho e, invariavelmente, a uma boa mesa. Quando o sol começa a baixar atrás dos pinheiros e a neblina — a nossa famosa “vina” climática — começa a lamber o asfalto, o caminho natural de quem busca uma noite especial é atravessar o portal de Santa Felicidade. Lembro-me de um casal que acompanhei em um roteiro privativo há alguns meses. Eles vinham do Nordeste e esperavam encontrar o burburinho turístico clássico. O que entregamos foi a Curitiba das luzes baixas e do aroma de sálvia na manteiga. A experiência de um jantar romântico nesse bairro não começa quando o prato chega à mesa, mas sim no trajeto pela Avenida Manoel Ribas, observando as fachadas de pedra e madeira que contam a história dos imigrantes italianos que chegaram aqui em 1878. Santa Felicidade é um organismo vivo. Muita gente comete o erro de achar que o bairro se resume aos gigantescos salões de rodízio. Embora o Madalosso seja um ícone histórico e arquitetônico que merece a visita, o segredo de uma noite a dois reside nas pequenas trattorias e adegas escondidas em ruas laterais. O que compõe a atmosfera perfeita na região: A recepção calórica: Em Curitiba, o romantismo passa pelo conforto térmico. Entrar em um restaurante que mantém a lareira acesa ou que oferece mantas de tear manual nas cadeiras muda o tom da conversa.
A trilha sonora orgânica: Esqueça o som ambiente de rádio. No bairro, ainda é comum encontrar o som do acordeão ou de um piano ao vivo, que preenche o espaço sem atropelar as palavras. O ritual do vinho: A região tem uma produção vinícola própria e artesanal. Degustar um tinto encorpado produzido ali mesmo, em adegas como a Durigan ou a Família Fardo (um pouco mais afastada, mas conectada ao conceito), traz um senso de lugar que nenhum rótulo importado consegue replicar. Sentar-se à mesa em Santa Felicidade é aceitar um ritmo diferente. O serviço costuma ser atencioso, herdando aquela hospitalidade de “casa de nonna”. O cardápio é um desfile de texturas: a polenta frita que estala na boca, o risoto cremoso e o clássico frango a passarinho, que por aqui ganha um tempero de ervas finas impossível de copiar.
Para casais, recomendo fugir do rodízio tradicional e optar pelo menu à la carte em casas menores, onde o tempo parece andar mais devagar. Um detalhe logístico que sempre reforço com meus clientes: a comodidade de um transfer ou receptivo especializado. Beber um bom vinho italiano e depois ter que dirigir de volta ao hotel no Batel ou no Centro Civico quebra o encanto. Ter um motorista à disposição permite que o casal foque apenas um no outro, aproveitando a iluminação cênica da Igreja Matriz de São José na saída, sem preocupações com GPS ou trânsito. A arquitetura local, com suas influências venezianas e coloniais, serve como um cenário cinematográfico para fotos. Já vi pedidos de casamento acontecerem ali, sob o brilho dos lustres de cristal, enquanto o garçom, com a discrição de quem já viu mil histórias, aguarda o momento certo para servir o espumante.